Diário

Lifestyle · 31 de julho de 2026 · 3 min

A casa como prática

Vivemos num apartamento pequeno, com uma guitarra que ocupa mais espaço do que devia e livros que já não cabem em lado nenhum. Durante anos tratámos isto como um problema de arrumação. Era um problema de escolha.

Uma casa contemplativa não é uma casa vazia: é uma casa onde nada está por acidente. A diferença sente-se logo à entrada: numa, respira-se; noutra, negocia-se com os objetos.

A prática que nos serviu foi esta: uma superfície livre por cada quarto. Uma só. A mesa da cozinha, a mesinha ao lado da cama, o canto do escritório. Essa superfície não recebe nada que não vá ser usado nas próximas horas.

Parece pouco, mas cria um hábito silencioso: quando temos um sítio vazio para proteger, começamos a repará-lo em tudo o resto. O caixote de coisas «para ver depois» perde o direito de existir.

A segunda prática é sazonal. Quatro vezes por ano, uma tarde inteira sem ecrãs, com uma caixa. O que entra na caixa sai de casa em duas semanas: vendido, dado ou deitado fora. Sem revisões.

O objetivo nunca foi minimalismo fotogénico. Era conseguir sentar-nos ao fim do dia sem que a casa nos pedisse nada.

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