
Clara Vasco & Vicente Aranha
Vivemos na mesma casa há onze anos. Isso explica quase tudo.
Conhecemo-nos numa sala de ensaios em Alcântara, onde ela tinha ido ler poemas e ele tinha ido afinar uma guitarra que já estava afinada.
A Clara escreve desde os quinze anos: poesia, e depois prosa breve, e agora romance. O Vicente compõe para teatro, cinema documental e, durante muito tempo, para ninguém: gravações guardadas em pastas com nomes de dias da semana.
Durante anos os dois trabalhos existiram em paralelo, na mesma casa e sem se tocarem. Até que uma noite ela leu um poema sobre respiração em voz alta na cozinha e ele começou a acompanhá-la, baixinho, sem pedir licença. Foi aí que percebemos que havia uma terceira coisa possível, que não era livro com banda sonora nem canção com letra bonita. Uma forma nova de ler devagar.
O Anima Verso nasceu dessa noite. Publicamos poucas obras por ano, sempre feitas em casa, sempre em português de Portugal. Não temos equipa, não temos calendário editorial, e gostamos que se note.
Bastidores
Como se faz um poema musicado
Ela escreve primeiro
Sempre. Um poema já traz a sua música por dentro (métrica, pausas, respirações) e a composição só tem de não a contrariar.
Ele lê em voz alta, sete vezes
Sem instrumento. É nessa leitura que aparece o compasso: há versos que pedem três tempos e versos que pedem que o tempo se suspenda.
Tira-se tudo o que sobra
Nunca acrescentamos um instrumento para preencher um vazio. Metade das nossas gravações são versões com coisas retiradas.
Discute-se ao jantar
Trabalhar em casal complica e melhora. Ninguém tem distância crítica, mas há sempre alguém na sala que sabe de onde veio aquele verso.
Queres ver de dentro?
No Círculo Íntimo publicamos os bastidores completos: as versões que ficaram de fora, as gravações imperfeitas, os poemas que não entraram.