Romance · 7 de agosto de 2026 · 4 min
As cartas que não enviamos
As cartas não enviadas são um género literário privado. Têm sempre a mesma estrutura: uma abertura demasiado formal, um meio onde a verdade se solta, e um fim que fica a meio porque foi nesse momento que percebemos que não íamos enviar.
Guardamo-las por prudência, dizemos. Mas a prudência raramente é o motivo verdadeiro. Guardamo-las porque uma carta enviada obriga a uma resposta, e uma resposta pode desfazer a versão da história com que aprendemos a viver.
Escrever ficção sobre isto é fácil e é traiçoeiro. Fácil porque o material é universal. Traiçoeiro porque a tentação é resolver: fazer a carta chegar, fazer o outro compreender, fazer a vida corrigir-se no último capítulo. A vida raramente faz isso.
O que a literatura pode fazer, e faz melhor do que a vida, é dar dignidade ao que ficou por dizer. Não resolver — reconhecer. Mostrar que aquele silêncio também foi uma forma de amor, imperfeita e humana.
Se tens uma dessas cartas guardada, não a envies por causa deste texto. Lê-a. Repara em quem eras quando a escreveste. Muitas vezes a carta era mais sobre ti do que sobre a pessoa a quem se dirigia.
E depois, se quiseres, escreve outra. Não para enviar. Para acabar.
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