Arte · 24 de julho de 2026 · 4 min
Quando a palavra encontra o som
Ela escreve primeiro. Sempre. Não por hierarquia, mas porque um poema já traz a sua música por dentro — métrica, pausas, respirações — e a composição só tem de não a contrariar.
O primeiro passo é ele ler o poema em voz alta, muitas vezes, sem instrumento. É nessa leitura que aparece o compasso: há versos que pedem três tempos e versos que pedem que o tempo se suspenda. Depois disso, a guitarra apenas confirma.
A regra que nos salvou foi uma: nunca acrescentar um instrumento para preencher um vazio. Se o silêncio incomoda, o problema é a expectativa, não o arranjo. Metade das nossas gravações são versões com coisas retiradas.
A segunda regra é que a voz não interpreta em excesso. Um poema musicado não é uma canção pop com letra bonita; é um texto que ganhou tempo. Se a melodia começa a chamar atenção para si própria, cortamos.
Trabalhar em casal complica e melhora. Complica porque ninguém tem a distância crítica de um estranho. Melhora porque há uma pessoa na sala que sabe exactamente de onde veio aquele verso e defende-o.
Ao fim de sete poemas descobrimos que estávamos a fazer um objecto único — não um livro com banda sonora, mas uma forma nova de ler devagar.
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